Ennio Candotti aponta desafios da educação brasileira

Posted on Abril 15, 2010

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TAMARA COSTA para o Gestão C&T online
Edição Extra – Nº 921 • 14 de abril de 2010 • Ano 9 (visualizar)

O professor da Universidade do Estado do Amazonas (Ufam), e diretor-geral do Museu da Amazônia (Musa), Ennio Candotti, indicou os principais desafios da educação brasileira durante o seminário “Educação de qualidade em todos os níveis”, realizado ontem (13), em Brasília (DF). O evento teve como objetivo discutir os gargalos da educação, além de reunir propostas que serão levadas à 4ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CNCTI), que acontece de 26 a 28 de maio, na capital federal.

O palestrante chamou a atenção para pontos que, segundo ele, ainda não foram registrados nas manifestações sobre educação. De acordo com Candotti, o Brasil enfrenta desafios que envolvem essencialmente os níveis político, sócio-ambiental, institucional, financeiro, cultural, epistemológico e curricular.

Para o professor, a proposta de transformar a educação brasileira começa no patamar da política. “Um estudo que aponta o mapa da violência mostra que há correlação entre concentração de renda e a questão dos homicídios entre os jovens. Às vezes se fala em pacto da educação com todos os seguimentos. Mas me pergunto se o setor financeiro está disposto a subtrair 10% de seus lucros para a educação”, questionou. Segundo ele, o investimento funcionaria como passaporte para um pacto ou uma discussão madura.

Parafraseando o ex-secretário-geral das Nações Unidas, Kofi Annan, Candotti levantou a questão da supervalorização dos direitos de propriedade. “Como explicar para os jovens que os direitos de propriedade valem mais que os direitos humanos? Assim, como poderíamos discutir com eles que nossos propósitos caminham na direção de reduzir essa concentração de renda que permeia nossa sociedade?”, provocou.

De acordo com Candotti, a discussão sobre o tema deve chegar aos 100 milhões de brasileiros que não têm acesso a pauta. Ele também lembrou, com ênfase na sua experiência na região amazônica, a importância das significações culturais. “Os conhecimentos tradicionais partem da exploração de atividades práticas, como odor, sabor, textura, cor, mais do que as construções conceituais formalizáveis. Acredito que entendendo melhor o modo de pensar das populações tradicionais e indígenas, ganharíamos alguma luz de como nos aproximar de uma faixa de jovens que resiste à educação formal, conceitual”.

Propostas
Para o diretor do Musa, a ausência de oficinas práticas indica a exclusão de uma grande parte da juventude do universo de preocupações dos gestores. Candotti sugeriu que a popularização da ciência seja feita por meio de instrumentos de instituições que não são da rede formal, idéia que, segundo ele, já vem sendo amadurecida há cerca de sete anos.

“A revolução começou com a abertura de um departamento no MCT de popularização da ciência”, adiantou. Segundo o professor, tais estruturas paralelas, como as semanas de ciência e os centros vocacionais tecnológicos (CVTs), têm provocado aumento do interesse pela disciplina e derivados.

Como proposta base, Candotti sugeriu a adoção de centros não formais abertos a crianças, jovens e adultos da comunidade, além de professores, como as Oficinas de Ciências, Culturas e Artes, denominadas OCCAs, que serviriam como espaço de competição com a marginalidade. “Esses lugares teriam equipamentos, salas, oficinas que as pessoas podem encontrar como local de criação, questionamento e discussão”, sugeriu.

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