Shopping da Rodoferroviária promete relocar ambulantes da zona central

Posted on Março 26, 2010

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TAMARA COSTA (para o correiobraziliense.com.br)

Com o objetivo de manter as normas urbanísticas e desobstruir as áreas centrais da capital, os camelôs do Setor Comercial Sul e Plataforma Superior da Rodoviária do Plano Piloto serão transferidos Shopping Popular da Rodoferroviária. Contudo, existem mais 3.000 trabalhadores da categoria, somente das zonas centrais, que dependem do fluxo de pessoas para trabalhar. E quem é mesmo camelô não quer sair da rua. Então, só resta perguntar: a relocação é suficiente para deixar o centro da cidade livre dos ambulantes?

Mais de 3.700 ambulantes se cadastraram para concorrer a um boxe na Feira da Rodoferroviária, como é conhecida. Desses, 1.633 foram chamados para o primeiro sorteio, que aconteceu no dia 25 de março. Para Marialva Rocha da Silva, presidente da Associação dos Feirantes e Ambulantes de Brasília (Asfab), os contemplados deveriam ter sido feirantes e camelôs da área central, e não pessoas que não obedeciam aos critérios propostos pelo governo. “A gente estava planejando uma coisa e veio outra. Se todos os ambulantes devidamente cadastrados tivessem sido contemplados, poderia ter entrado quem quisesse. Mas aconteceu o contrário. Entrou flanelinha, vendedor de picolé e empresário no sorteio. Virou uma bagunça”, diz.

O sorteio foi interrompido por uma liminar apresentada por Marialva ao Ministério Público. Após a denúncia, mais de 500 pessoas, que não respondiam às condições pré-estabelecidas no edital (http://www.sejus.df.gov.br/paginas/subcid/subcid_02.htm) foram retiradas. Até hoje estou brigando e já consegui um acordo, que abrirá vagas para pessoas que estavam aguardando a chamada”, conta a presidente. O Shopping estava programado para 1,704 boxes, no total. A última informação dá conta que a Secretaria de Obras fez a revisão do projeto e aumentou 100 boxes.

O presidente da Associação do Shopping Popular de Brasília (Asshop), Caio Donato, afirma que mais de 99% dos ambulantes já estão cadastrados. “Eles serão atendidos e transformados em empresários, com todos os direitos e um lugar fixo para trabalhar. Estamos buscando linhas de crédito junto aos bancos, com juros baixos, de até 6,75% ao ano”, diz. A Asshop responde por 95% dos ambulantes do centro de Brasília, que ficam, essencialmente, no Hospital de Base, Conic, Setor Comercial, Plataforma Superior da Rodoviária, Banco Central e Banco do Brasil.

A Coordenadora de Feiras, Márcia Fernandes garante que nova feira vai acabar com a desorganização na zona central, e que, nas ruas, ninguém fica. “Se aparecer alguém, a fiscalização será imediatamente acionada para que a pessoa saia de lá de bom grado. Se ela não quiser sair, terá os bens apreendidos”, alerta.

A expectativa do presidente Sindicato do Comércio de Vendedores ambulantes do DF (Sindvamb), Bartolomeu Gonçalves, é que os ambulantes não contemplados sejam remanejados para outras feiras. “Estamos batalhando para que os ambulantes que não foram sorteados sejam encaminhados para as Feiras do Guará, Ceilândia e Gama, de acordo com a moradia”, adianta. Segundo o presidente, a grande preocupação da categoria é que não-ambulantes ou empresários consigam entrar pela janela. “Aí vai começar a complicar, porque nós sempre vamos movimentar ações contra o governo. O Ministério Público está em cima disso”, afirma.

A expectativa
A obra está pronta. A inauguração, prevista para o dia 19 de abril, foi suspensa. Agora, ninguém sabe quando o Shopping da Rodoferroviária deve começar a funcionar. A reportagem do Correio Braziliense esteve na Plataforma Superior da Rodoviária e no Setor Comercial Sul, onde conversou com os ambulantes. A grande maioria acredita que a medida vai acabar com o comércio ilegal e que, de acordo com suas experiências, o governo, quando quer, consegue tirar todos da rua.

Mesmo com o espaço garantido, muitos ainda não sabem ao certo como será a mudança e como serão amparados. “Ninguém sabe a respeito dessa inauguração. E quanto mais demorar, melhor. Porque aqui é melhor e mais lucrativo”, opina Divino Garcia, 58 anos. Ele trabalha há mais de 20 anos como camelô. Ele está e está a 11 anos no mesmo ponto no Setor Comercial, onde vende bolsas e malas.

“No início vai ser difícil. Primeiro, porque temos dinheiro para investir e teremos que fazer dívidas. Depois porque vamos ficar longe de tudo”, diz Antônia Nunes, camelô a 30 anos. Segundo ela, até a clientela se adaptar, os ambulantes terão dificuldades para conseguir vender seus produtos.

Dulce Maria de Lima, 35 anos, trabalha há dez anos na Plataforma Superior da Rodoviária. Ela foi contemplada no sorteio e agora está expectativa. “Estou cansada de trabalhar na rua. Espero muito que dê certo para a gente ter um lugar fixo para trabalhar”, diz. Dulce atualmente é vendedora de roupas.

Já Raimundo Vieira, que trabalha a 25 anos na passarela da rodoviária, não se mostra esperançoso. “Vai continuar a mesma coisa. Estou inscrito na associação (Asshop), já peguei o número da banca. Só que não tenho dinheiro para montar um boxe. Vou ter que fazer uma dívida”, reclama. “Estamos no centro e não estamos vendendo, imagina lá?”, questiona o vendedor de relógios.

Ambulante há cerca de dez anos, Irami Pereira, 37 anos, representa os ambulantes inscritos que não foram chamados. “Meu nome não foi sorteado e estou com tudo certinho. Por isso eu recorri, e agora estou esperando a terceira chamada”, diz. Caso não consiga um boxe, Irami, teme que sua mercadoria seja confiscada, por isso deve ficar sem trabalhar.

*Fotos e sugestão de legendas
Alguns ambulantes que provavelmente irão Shopping Popular

Divino Garcia: “Quanto mais demorar, melhor. Nas ruas a gente tem menos despesa”, afirma Divino Garcia.
Dulce Maria: Dulce Maria trabalha como camelô a dez anos. Atualmente vende roupas. Ela espera que a nova feira certo pois está “cansada de trabalhar nas ruas”
Edson Ferreira: Para Edson Ferreira, a rua é melhor para trabalhar, a menos que se tenha dinheiro para investir em novas mercadorias
Janduí Vieira: Janduí Vieira é ambulante há mais de 20 anos. Ele acredita que o Shopping Popular vai dar certo, mas não no início
Antônia Nunes: Com trinta anos de profissão, Antônia Nunes acha que o Shopping é uma boa oportunidade, mesmo que no início seja difícil
Maria de Medeiros: “Quem é camelô mesmo, não quer sair da rua”, afirma a vendedora de bijuterias
Maria Irami: Maria Irami aguarda ser chamada. Caso não seja, deve ficar sem trabalhar. “Tenho medo que tomem minhas mercadorias”
Taxistas: Os taxitas Helton Lúcio, Marcos Rocha e José Inácio (da direita para esquerda) acreditam que com a medida, o governo vai consegir acabar com os ambulantes do centro de Brasília.

*Matéria de abril/2008

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