Planaltina-DF, a cidade dos sonhos

Posted on Março 26, 2010

0


TAMARA COSTA

Nascer em Planaltina em meados dos anos 80 foi uma oportunidade. Aqui não penso sobre a cultura da “fofoca”; aquela detalha crítica conjunta da vida aleatória típica de cidades do interior, o onde as pessoas fazem de tudo para pautar seus sentimentos e opiniões baseados em acontecimentos exteriores – tipicamente aleatórios. Nem penso também sobre a dificuldade de acesso aos acontecimentos do mundo, principalmente relativos às artes. Nascer em Planaltina foi uma oportunidade de aprender a conviver coma diversidade.
Caso eu tivesse nascido no Plano Piloto – Asa Norte – 310 – terceiro andar -, onde moro há cerca de dez anos, talvez tivesse me tornado uma pessoa mesquinha, meio “sem noção”, fechada em um apartamento onde se quer os vizinhos se conhecem.

Falo isso porque me criei na rua, falando com as pessoas, expansiva, entre os moleques da escola pública, os amigos de infância e minha primeira, espaçosa e única casa. Morando em um lugar onde as pessoas são mais humildes, não tive que despontar nenhum esforço para desenvolver habilidades como a conviver naturalmente entre diferentes. Em Planaltina, as pessoas costumam se ajudar e se envolver. No Plano Piloto as pessoas costumam se atropelar, ou melhor, não costumam se perceber em comunidade.
Depois de me mudar para Brasília comecei a notar que as pessoas que nascem no Plano Piloto se vêem, de alguma forma, desligadas de um plano cultural, ou de costumes de raiz ou mesmo das cidades satélites, onde a vida se configura de uma maneira mais natural – nem tão ou nada planejada.

É comum entre meus amigos brasilenses, os “do Plano”, a conversa do tipo “ele passa e finge que não me vê”, e mesmo já tendo sido apresentado várias vezes “ele insiste em dizer que não lembra de mim”. É patético. Em Planaltina, dificilmente isso poderia acontecer. Talvez porque as pessoas tenham conseguido mais facilmente, ao longo dos anos, cultivar sentimentos de humildade e simplicidade, típicos de um lugar tradicional. Talvez ressonâncias da igreja matriz. Quem sabe também feira de domingo; ou até mesmo os bailes sertanejos. A gente “da satélite” sempre acaba encontrando todo mundo na Festa do Divino ou em algum barzinho; também na Paixão de Cristo. As rotinas, os mesmos lugares. Quem sabe o catolicismo, presente em grande grau em seus mais de 230 mil habitantes (atuais), tenha invadido, de alguma forma, o espírito de seus moradores.
Em Planaltina também tem um puteiro; ou melhor, tinha. Hoje as luzes vermelhas estão apagadas. Uma zona, localizada no setor tradicional cidade, foi responsável pela fama nos tempos áureos da satélite em meados dos anos sessenta, quando Brasília estava sendo construída e habitada. Talvez esse espírito de aceitação e diversidade já tenha sido instalado entre a igreja matriz e a “zona” – que são divididas por apenas uma quadra. Claro que existe, sempre existiu e continuará existindo o preconceito. Mas ali não há subdivisão de áreas ou setores; cariocas, mineiros, nordestinos, paulistas ou sulitas, de alguma forma também como na capital. A diferença de Planaltina é que a carola e a puta, para além das diferenças, tiveram, no mínimo, suas filhas educadas na mesma escola – a pública. Isso no meu tempo. Tive amigas filhas de prostitutas. Me pergunto se isso seria possível se eu morasse no Plano.

Minha avó, Terezinha, humilde mãe batalhadora de família, veio de Minas Gerais com meu avô e seus quatro filhos – Silvéstria, Silvânia, Sinomar e Sismar – em meados dos anos setenta. Meu avô, Lázaro com mania de “s”, era pedreiro e também motorista de ambulância do hospital público regional. Ali, no setor tradicional,Terezinha recomeçou a vida costurando para as rameiras vizinhas. Nesses anos, ela fez amizade com uma prostituta; o que acabou lhe rendendo uma filha adotiva. Terezinha acabou se tornando confidente de Aparecida, uma mulher da vida, e lhe adotou a filha, Keila, que com o tempo se descobriu lésbica para desgosto da família. Mas foi aceita, como tudo acaba sendo, insisto, em Planaltina, mesmo sob os véus da indiferença da igreja e família. Keila morreu, em 2005, em um acidente de Van, quando vinha o Parque da Cidade

Planaltina, para mim, tem cheiro de nostalgia. Meu pai, que foi ali parar depois de passar em um concurso da policia civil, construí família e morreu cedo – enfartado aos 40 anos. Planaltina tem, às vezes, cheiro de flores e mortos, de alguma forma, cheiro de velório. Lembranças de pai, de reuniões em família – nostalgias de um passado colorido, regado à muitos amigos.

Quando vim para o Plano, meio que fugida das lembranças – minha mãe precisava muito disso – senti que a vida saltou de pequena e pacata para grande a vazia. Planaltina hoje me remete à sentimentos de passado, saudosismo, encantos, infância, como também perda e agonia. Presente, atual correria da vida que atropela é Plano Piloto; como também planejamentos e futuro incerto, meio que “sem aroma” e coloração.

Aqui termino, saudosa do “ritmo Planaltina”, pois Brasília amanhã acorda apressada e cheia de trabalho. As pessoas vão passar, e eu também – não posso ficar para trás.

Posted in: CRÔNICA