De sucateiro a alquimista de metais

Posted on Março 26, 2010

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Ramon Rocha conta sua trajetória artística e fala de investimento, crescimento e reconhecimento de um trabalho que começou como brincadeira

TAMARA COSTA (para o Escritório de Histórias)

Ramon Rocha saiu de Paraopeba (MG) aos seis anos de idade quando seu pai foi chamado para trabalhar com botânica na Universidade de Brasília. Eles se mudaram para Taguatinga, uma das cidades satélites mais independentes e bem estruturadas do Plano Piloto – situada a cerca de 20 km de Brasília. Sidney Geraldo da Fonseca, pai de Ramon, transitou entre a natureza e a mecânica até o dia em que decidiu trabalhar definitivamente com o que gostava, as máquinas. Atualmente Sidney é reconhecido como um dos melhores torneiros mecânicos do Setor de Oficinas de Taguatinga. Pai e filho trabalham no mesmo local e compactuam de uma mesma habilidade; o trabalho detalhado com estruturas metálicas.

Aos doze anos Ramon começou a ajudar o pai na parte de torno e solda. A partir daí começou a criar gosto “Pegava um parafuso e uma porquinha e soldava; brincando sabe? Sem compromisso… Depois, já com dezesseis anos, comecei a fazer umas peças melhores”. Ramon trabalhou como serralheiro com estruturas decorativas – escadas, coberturas e espelhos de metal -, mas desistiu da atividade por conta da dependência de funcionários trapalhões, que sempre lhe rendiam preocupações e dores de cabeça.

Vários artistas plásticos da capital vinham ao galpão do habilidoso serralheiro para que ele os ajudasse na soldagem de suas peças. Era comum que os artistas o elogiassem e então sugerissem a ele uma exposição com peças originais, afinal Ramon acabava fazendo parte de seus trabalhos artísticos e sugerindo modificações. Dobra aqui, aumenta ali, Ramon decidiu montar sua primeira exposição.

Depois de tanto ouvir palavras de incentivo de artistas plásticos conhecidos, o serralheiro decidiu montar sua primeira exposição – que aconteceu em um shopping de decoração famoso na capital. Esta exposição lhe rendeu sua primeira reportagem na televisão, no jornal local da Rede Globo. De 2001 pra cá, Ramon tem sido convidado a mostrar suas peças em espaços nobres de Brasília e do entorno. Segundo o escultor, expor em shopping é vantajoso pelo volume de venda de suas peças. Em uma dessas exposições, chegou a vender oitenta e quatro peças em quinze dias.

Aos poucos, Ramon passou de serralheiro metalúrgico para artista plástico. Sua arte é bastante nobre e original: transformar sucata em objetos de arte e decoração. A grande diferença de Ramon Rocha para outros idealizadores dessa trama – que envolve reciclagem e aproveitamento de materiais – é que ele exibe muita delicadeza e fino trato na confecção e na amostragem suas peças, que surgem a partir de todo um histórico de trabalho pesado, de material proveniente do ferro velho. Os acabamentos são finos impecáveis! – Esse é um elogio que ele sempre ouve, afinal muitas de suas criações surpreendem pela perfeição. Algumas de suas peças possuem movimento; alguns personagens movimentam as articulações, o cabelo, e até ensaiam barulhos e ritmos, como no caso dos percussionistas.

Novo ferro velho
Procurar, separar e limpar; ducho, catraca de bicicleta, parafuso, porca, sem-fim da caixa de direção, terminal da barra de direção, esteira industrial… Todas essas peças estão organizadas dentro de garrafas PET que estão empilhadas em uma estante dentro de seu ateliê, que é cuidadosamente limpo e decorado com sucata. A organização é indispensável para o artista que tenta colocar certa ordem no caos que encontra em suas infindáveis buscas.

Para começar o trabalho com a sucata é árduo. Primeiro, é preciso ir ao ferro velho, já que a matéria-prima de suas produções é a sucata, e a maior parte das peças que compõem suas esculturas são escolhidas e compradas, por ele mesmo, nesses locais. “Com o mesmo tipo de sucata não dá pra criar coisas novas”, por isso o artista está sempre em busca de novos materiais, conseqüentemente, em busca de ferros velhos por ele ainda desconhecidos. Ramon também já possui conhecidos que separam e guardam peças que chegam nesses locais.

“Trabalhar com ferro é pesado, tanto na hora de catar quanto na hora de trabalhar”. Para o escultor, que dá conta de todos os processos de seu trabalho, uma das partes mais chatas é lavar as peças. “Tem gente que eu ofereço grana pra lavar, mas o pessoal não quer”. Ele faz tudo; cata, monta, cria, pinta, leva pra vender, traz de volta – dá conta de 100% do trabalho, e faz questão disso.

Quando começou a trabalhar suas obras de arte Ramon era apontado na rua como sucateiro. “Quando eu saía daqui ou chegava do ferro velho o pessoal vinha malhando – Ó o sucateiro!”. Depois de sete anos de aparições na mídia, tanto televisiva quanto impressa, ele conta que ganhou reconhecimento mesmo quando apareceu, em 2004, no programa da Ana Maria Braga. “A equipe dela ficou dois dias aqui me acompanhando. Me filmaram no ferro velho catando a sucata; depois vindo pra cá e montando tudo”. Sepois dessa aparição acabaram as gozações. Nas matérias de jornais, Ramon é apresentado por meio de adjetivos enfáticos e enaltecedores tais como “O rei da sucata” e “O Alquimista de metais”, e não seria é menos – Ramon se sobressai porque sabe tratar a matéria prima de seus trabalhos com perfeição.

O trabalho final

Músicos que tocam todo tipo de instrumento e percussão; réplicas e leituras de animais e aviões; esportistas; triciclos e motos são algumas de suas esculturas mais freqüentes. A finalização é feita com pintura metálica ou cromagem – o resultado são peças que beiram a perfeição, e o que é melhor: tudo pode ser comprado! É difícil conhecer obras de arte dessa categoria e não querer levar algo, já que os valores de suas peças estão dentro das possibilidades de aquisição de um trabalhador dignamente remunerado.

Ramon não revela nenhum amor prisioneiro por nenhuma de suas obras de arte. Ele demonstra apenas um carinho especial pelas motos, em especial a Harley Davidson – que chega a pesar cerca de 16kg. De lei, todo ano Ramon produz anualmente uma Harley – apenas uma. Este ano ele abriu uma exceção e já confeccionou duas, pois se tratava de um presente especial.

Normalmente recebe pedidos e encomendas para idealizar e compor troféus de premiações artísticas para redação, pintura acrílica, quadrinhos, crônica, vídeo e filmagens – para citar alguns dos trabalhos já realizados. Ramon tem certa liberdade de criação, pois suas peças são únicas e dificilmente saem idênticas – portanto o artista cria os troféus e os idealizadores aprovam ou não a finalização.
Desafio é a palavra de ordem do artista. “O pessoal pede e você tem que saber criar. Graças a Deus minhas peças nunca foram rejeitadas, muito pelo contrário. Mas você sempre fica naquela: Será que vão gostar?”.

Ateliê Espaço Cultural
Hoje, aos 47 anos, Ramon Rocha aposta em viver de arte. Para tanto, o artista reclama por mais espaços na capital para exposição e venda de seus trabalhos. Mas enquanto isso não acontece, ele está investindo em um espaço cultural para mostra de suas peças. O espaço fica em frente a seu ateliê-casa, no Setor de Oficinas de Taguatinga. Esse ponto é delicado, pois se trata de um lugar inusitado para tal iniciativa – que promete interferir num universo cinza de óleos, motores e trabalho pesado com idéias de arte e reciclagem. O espaço cultural será inaugurado em breve, e está aberto para o agendamento de visitas.

Para o futuro, o artista pretende abrir uma loja no Plano Piloto para que tenha mais retorno financeiro. No momento sua prioridade é investir em máquinas. “Todo dinheirinho que sobra invisto em máquinas. Faço isso para melhorar mais ainda o acabamento e ter novidades. Tenho clientes que têm várias peças porque sempre tenho peças diferentes”, conta. Sua última aquisição foi uma solda específica para trabalhos com aço inox. As próximas aquisições já estão agendadas para o próximo mês, quando Ramon vai a São Paulo para comprar uma viradeira de chapa e uma frisadeira.

Para entrar em contato com o artista e suas obras basta agendar uma visita ao seu Ateliê-Espaço Cultural que fica na SHN Área Especial 95, em Taguatinga-DF ou entrar no site http://www.ramon.rocha.nom.br.

* Este perfil foi publicado em Abril de 2007 no site http://www.escritoriodehistorias.com.br

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