Com os pés fincados no chão

Posted on Março 26, 2010

0


Ambientalistas brasilienses vivem a permacultura, um sistema ecológico de ocupação da terra que está em consonância com os ciclos natureza

TAMARA COSTA (para o Jornal Na Prática)

Alimentos envenenados, poluição, escassez de água são apenas alguns dos efeitos da ocupação desregrada dos solos. O desconforto dos centros urbanos, como resultado das ações da tecnologia e do progresso, nos faz repensar o conceito bem-estar. A permacultura (cultura permanente) é uma proposta ético-ambiental difundida pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren em meados dos anos 70. Em síntese, é a reunião de práticas agrícolas tradicionais e técnicas modernas, tendo em vista o desenvolvimento sustentável e integrado das propriedades, gerando um ambiente cooperativo e justo entre homem e natureza.

No Brasil existem inúmeras organizações, dentre elas institutos, comunidades e sítios que realizam ações permaculturais. No Distrito Federal, praticantes se reuniram e formaram a ONG Ipoema – Instituto de permacultura, organização, ecovilas e meio ambiente. Técnicas de consumo sustentáveis, agroflorestas, construções ecológicas, saneamento alternativo e paisagismo produtivo são algumas das estratégias propostas para que os recursos naturais sejam utilizados com a preocupação de não gerar desperdício e/ou poluição.

O Ipoema foi oficialmente fundado em março de 2005. Trata-se de um grupo de permacultores jovens, em sua maioria universitários ou já formados pela UnB, que trabalham modelos habitacionais e agroflorestais em suas propriedades. “O foco atual do grupo é montar sítios e espações permaculturais modelo”, afirma Iberê Mesquita, estudante de engenharia florestal e permacultor. Iberê é o proprietário do Sítio Tamanduá, um dos locais onde são realizadas ações-modelo, focadas na produção alimentar pela agrofloresta. Os outros espaços de referência prática são o Sítio Nós Na Teia e Chácara Asa Branca.

“Somos apenas uma parte da trama da vida e queremos ocupar os ambientes de forma sustentável”, atenta Cláudio Jacintho, engenheiro florestal e permacultor brasiliense. Cláudio é um dos proprietários da Chácara Asa Branca – um dos principais focos da permacultura no DF. “Propomos a resolução dos problemas básicos do ser humano sem degradações”, continua o permacultor. Segundo ele, a permacultura traz, principalmente, soluções sustentáveis e permanentes para persistência da vida no planeta.

Para quem mora em apartamentos ou ambientes urbanos, a dica é introjetar aos poucos valores ecológicos, como por exemplo a consciência na hora de usar a água. A permacultura é uma prática que cuida da permanência sustentável do ser humano no planeta através de três princípios básicos: cuidado com a terra, com as pessoas e a com a distribuição dos excedentes. Ao contrário do paradigma capitalista, que trabalha com o lucro e a acumulação de excedentes, a permacultura se cria revendo esses valores e os convertendo-os ao paradigma da abundância “sem perder o conforto e a qualidade de vida”, esclarece Cláudio Jacintho.

Chácara Asa Branca
Localizada a 25 Km da capital, a Chácara Asa Branca é um dos exemplos vivos da permacultura aplicada. Com cerca de quatro hectares, a Chácara mantém a vegetação nativa do cerrado preservada. “Só desmatamos no espaço que usamos”, afirma Domingos Almeida, piauiense de 21 anos que mora e cuida do local há dois anos.
A chácara possui três habitações, construídas com o barro, bambu e árvores nativas do local, junto a tecnologias simples como vigas de ferro, cimento e restos de mármore (lixo da marmoraria ao lado). A técnica se assemelha ao antigo pau-a-pique. Uma das partes da casa é o sanitário compostável, ou banheiro seco. “As (fezes e xixi) são armazenados em duas câmaras, e dentro de seis meses já é um composto. Temos o compostário, onde as bactérias fazem o lixo orgânico virar adubo, que vai direto para as hortas ou plantas”, diz Domingos.

A captação de água potável é feita pelo telhado, através de uma calha. Há também reservatórios e tanques para captação da água da chuva. No local há um filtro artesanal – que limpa a água que é utilizada para lavar roupa e tomar banho. A demanda total da chácara por água vêm sendo suprida por esses sistemas de captação. “A energia ainda é da rede, mas temos projetos para cessar essa demanda no futuro. Pra isso precisamos de recursos”, adianta Cláudio Jacintho.

O cultivo das hortas proporciona a retirada de alimentos tais como banana, mamão, milho, graviola, goiaba, jaca, caju, entre outros. As agroflorestas estão inseridas no projeto de paisagismo produtivo, gerando raízes e grãos como tomate, jaca, mandioca e feijão – além de ipês que futuramente servirão para construir edificações.

A Chácara Asa Branca é um espaço projetado para uma futura ecovila de sete habitações – todas elas voltadas à auto-sustentabilidade. O local está aberto à visitações.

Mais informações:
http://www.asabranca.org.br
http://www.ipoema.org.br

*Matéria publicada em 3/5/06, disponível neste link

Posted in: MEIO AMBIENTE