As caras de Brasília

Posted on Março 26, 2010

0


TAMARA COSTA

No início era o sonho de Dom Bosco. Em seguida, o Plano Piloto. Para os especialistas, a cidade da construção civil, da técnica rodoviária aplicada à urbanista e do urbanismo modernista – onde é nítida a separação entre o tráfego de veículos e o trânsito de pedestres. Para os mais otimistas, o centro do desenvolvimento nacional e da imigração interna. Para os intelectuais, uma espécie de vulto do empreendimento humano e artístico. Para os viajantes, um avião cheio de super-quadras com a comodidade da vida comunitária: escola, comércio de bairro e igreja.

Para a Organização das Nações Unidas para a Educação (Unesco), Brasília é Patrimônio Cultural da Humanidade em razão sua arquitetura, urbanismo e paisagismo. O título lhe garante proteção e conservação. O Plano Piloto de Brasília, do urbanista Lúcio Costa, foi pensado, basicamente, a partir do cruzamento de duas linhas: eixo norte-sul, principal via de comunicação entre os setores residenciais, e o eixo monumental, onde foram mais tarde foram erguidos os monumentos de Oscar Niemeyer. Para quem vê de cima, Brasília é acompanha o desenho de pássaro ou um avião.

Quem chega a Brasília com a história pronta, talvez não possa imaginar que a capital ultrapassa as fronteiras do turismo cívico e arquitetônico. Para Carlos Alberto da Silva, 28 anos, nascido e criado na capital, as imagens do centro mostram as mais ricas faces de Brasília. Para ele, uma fuga à típica mania brasiliense de setorização. “É muita gente num pequeno espaço, transeuntes que não moram nas regiões centrais, mão de obra da periferia e o caos concentrado. Em outros poucos lugares Brasília pôde parecer tão imprevisível. Pessoalmente eu gosto da intersecção desses contrastes – essa minoria que mora numa obra de arte e o exército de trabalhadores que sustentam a utopia”, afirma.

Com uma intensa movimentação de imigrantes, vindos de diferentes locais do país, a cultura local acabou se consolidando por meio da adaptação de várias culturas. Os padrões originais acabaram tomando rumos diferentes de suas matrizes. Segundo a comunicadora Mônica Nóbrega, a miscigenação e a pluralidade, recorrente na capital, oferecem possibilidades de conhecer várias porções do Brasil e quebrar preconceitos acerca de outras cidades. “Brasília faz com que as pessoas se sintam solúveis, mais passíveis a se misturar às essências dos outros, contrariando quem diz que a cidade é fria”, diz.

Mônica chegou na capital em 1960, aos três anos de idade, trazida pelas perspectivas de trabalho para o pai engenheiro, quando havia basicamente “três quadras e muito pó vermelho”. Para ela, Brasília hoje tem cara de empreendedorismo. “Todo mundo dizia que aqui seria uma cidade de funcionários públicos, e a gente vem mudando essa história. Hoje vemos que os setores de investimentos, de artesanato, de informática e de moda comprovam que Brasília têm uma vocação empreendedora”. Para Mônica, a capital hoje ultrapassa o perfil de acomodada para se tornar uma cidade pró-ativa.

Segundo o poeta Nicolas Behr, candango adotado por auto-definição, a capital tem várias facetas, algumas mais visíveis que outras. “Já que em Brasília ainda não é possível falar de dança, teatro ou comida tradicional, a gastronomia pode ser considerada a face mais marcante”, diz. O poeta elege, como os mais populares ícones gastronômicos, o pastel com caldo de cana, a pizza e o caldo. “Falo em termos típicos, não históricos. Mas quando falo pizza, estou falando a da Dom Bosco. Quando falo pastel, estou falando o da rodoviária, e o caldo é o do Fino, na 409 norte”, destaca.

Brincar embaixo do bloco, deitar na grama no parque da cidade, beber vinho na esplanada e “assistir” a chegada de aviões no aeroporto são alguns dos programas mais clássicos e alternativos da capital. Para o publicitário Marcus Povoa, a tradição não é generalizável. “Agente sabe que nem toda criança brinca nos parquinhos das super-quadras, que nem todo mundo vai ao Beirute, que beber vinho na esplanada nem é um programaço. Mas são essas as nossas ‘tradições”, opina o publicitário. Marcus nasceu em Brasília e percebe que os ricos têm mais potencial para participarem de programas tradicionais em Brasília. “Eles estão mais aptos, monetariamente, a usufruir de programas como ver o pôr-do-sol no Pontão e passear de lancha no lago”, opina.

Um semblante inspirado
Esportistas de domingo do Eixão, novos rockers em shoppings, hippies comerciantes, patricinhas alternativas no Giberto Salomão, skatistas no Setor Bancário e mais carro do que gente. Gente massa que se conhece e não se cumprimenta. Tesourinha. Família no Beirute. Arquitetura de ficção científica retrô. Sotaque de apresentador de televisão. Setorizações claras: setor de tudo-que não-presta sul e setor de ricos e protegidos norte. Um monte de bares, festas e shows e no fim, nada pra fazer. Sobretudo e para todos, o céu, o maior espetáculo da capital.

Costuma-se dizer que Brasília não tem mar, mas tem céu. A capital foi construída na linha horizonte, com a idéia de céu ao alcance, independente do ponto de vista. É recorrente essa visão, principalmente entre os artistas. Para a escritora Clarisse Lispector, Brasília “é uma praia sem mar”, “uma cidade redonda e sem esquinas” ou “uma quadra de tênis”, relatou em suas crônicas, onde manifesta também uma impressão de artificialidade. “Brasília tem árvores. Mas ainda não convencem. Parecem de plástico”, lembrou. O cineasta Sérgio Rezende, no longa O Sonho não acabou, faz um relato da vida da primeira geração de brasilienses nascidos na capital, nos anos 1980. Uma das personagens passeia pelo Eixão de moto, enquanto pensa “aqui, sol te olha de frente”.

Em Brasília você acaba tendo uma relação diferente com o tempo e o espaço em razão da grande quantidade de áreas vazias. Para Ana Arruda, produtora cultural, nesses vazios que a arte se faz presente. “Um gramado extenso ou um teatro vazio; o fato é que aqui, os lugares podem ser ocupados. Ao contrário de São Paulo, por exemplo, onde já está tudo lotado”, lembra Ana, que completa 25 anos um dia antes do aniversário de Brasília. “Acho errado dizer que aqui não tem nada pra fazer. Tem, e muito. Aqui temos muito espaço, principalmente para áreas de cultura e criação”, lembra a produtora.

Brasília é considerada a capital da cultura, principalmente por sua íntima relação com o cinema. O cineasta Vladimir Carvalho insiste em dizer durante suas entrevistas que Brasília é a capital do cinema, pois já nasceu sendo filmada e acompanhada das lentes de fotógrafos e cinegrafistas.

O Festival de Cinema, que chega este ano a sua 41º edição, é um dos mais antigos eventos do calendário oficial de cultura – que hoje inclui também Feira do Livro e a Feira da Música Independente. O público do Festival de Cinema é um espetáculo a parte – de amor ou ódio, aplausos ou vaias. O brasiliense é considerado, principalmente pelos cineastas, um sujeito crítico e bem informado.

Especulações à parte, o brasiliense tem um padrão de vida superior a de outros estados. Brasília chega este ano, em seu 48º aniversário, com um milhão de veículos em circulação e duas lideranças nacionais: o maior número delitos de trânsito e o maior número de veículos por habitante.

O poeta Nicolas Behr acredita que a “ditadura do automóvel” e a falta de um transporte coletivo eficiente são as maiores ameaças à capital e à qualidade de vida de seus habitantes. “O trânsito está estrangulando a cidade e a escala bucólica na qual Lúcio Costa falava. Tudo começou no automóvel e nele vai terminar. Estamos no começo do fim”, diz o poeta.

Sugestão de fotos:
– Nicolas Behr (arquivo)
Legenda: O poeta elege, como o principal ícone da gastronomia brasiliense o pastel com caldo de cana da rodoviária

– Festival de Cinema de Brasília (arquivo)
Legenda: Para o cineasta Vladimir Carvalho, Brasília é a capital do cinema

– Eixo Monumental (arquivo)
Legenda: Divisão entre a asa norte e asa sul. No Eixo Monumental estão localizados os principais órgãos do governo federal

– Candangos e pioneiros (arquivo)
Legenda: Os habitantes da capital são conhecidos pela heterogeneidade. Eles vieram de vários lugares do Brasil

– O céu (arquivo)
Legenda: Sempre lembrado por sua beleza, o céu ao alcance de todos é considerado o mar Brasília

Enquete:
Para você, o que é “a cara de Brasília”?

Opcional:
Atrativos turístico e endereços (fonte: Coordenadoria de cidades – GDF)

Autódromo Internacional Nelson Piquet (SRPN / SPAS)
Catedral (Esplanada dos Ministérios)
Catedral Rainha da Paz (Eixo Monumental – Via S1 Oeste)
Centro de Convenções Ulysses Guimarães (Eixo Monumental – Via S1 Oeste)
Centro Cultural do Banco do Brasil (Setor de Clubes Sul)
Centro Islâmico Brasileiro (SGAN 912 S/Nº – Asa Norte)
Centro Poliesportivo Ayrton Senna (Eixo Monumental Norte)
Museu Histórico do Senado Federal e Câmara (Praça Três poderes)
Espaço Lúcio Costa (Esplanada dos Ministérios)
Espaço Oscar Niemeyer (Praça dos Três Poderes – lote J)
Igreja Dom Bosco (SEPS 702, Bloco “B” – Asa Sul)
Igreja Messiânica Mundial do Brasil (EQN 315/316 S/Nº – Lote “A”)
Igrejinha Nossa Senhora de Fátima (EQS 307/308 – Asa Sul)
Instituto Histórico e Geográfico do DF (Eixo Monumental Sul)
Instituto Seicho-No-Ie (EQS 403/404 – Asa Sul)
Memorial dos Povos Indígenas (Eixo Monumental – Via N1 Oeste)
Memorial JK (Eixo Monumental – Via S1 Oeste)
Museu Brasileiro de Contabilidade (Setor de Autarquias Sul)
Museu da Caixa Econômica Federal (Setor Bancário Sul)
Museu da Fundação Nacional de Saúde (Esplanada dos Ministérios)
Museu da Cidade (Esplanada dos Ministérios)
Museu da Imprensa Nacional (Setor de Indústrias Gráficas)
Museu de Artes e Tradições do Nordeste, na Casa do Ceará (SGAN 910, Conjunto “F” – Asa Norte)
Museu de Geociência da UNB (Campus Universitário da UNB – Asa Norte)
Museu de Valores do Banco Central (Setor Bancário Sul)
Museu do Superior Tribunal de Justiça (Esplanada dos Ministérios)
Museu do Supremo Tribunal Federal (Esplanada dos Ministérios)
Museu do Trabalho (Esplanada dos Ministérios)
Museu Nacional de Gemas (Torre de TV – Eixo Monumental)
Museu Postal e Telegráfico da ECT (Setor Comercial Sul)
Oratório do Soldado (Setor Militar Urbano)
Palácio da Alvorada – Residência Oficial (Setor de Clubes Sul)
Palácio da Justiça (Eixo Monumental Sul)
Palácio do Buriti (Eixo Monumental)
Palácio do Itamaraty (Esplanada dos Ministérios)
Palácio do Jaburu (Setor de Clubes Sul)
Palácio do Planalto (Esplanada dos Ministérios)
Panteão da Liberdade e da Democracia Tancredo Neves (Esplanada dos Ministérios)
Parque da Cidade Sarah Kubitschek (ao longo das Quadras 900 – Asa Sul)
Parque Ecológico Olhos D água (SQN 413 / 414)
Parque Nacional de Brasília – Água Mineral (Via EPIA, BR-040, Setor Militar Urbano)
Parque Olhos D’água (SQN 413/414)
Panteão da Pátria (Esplanada dos Ministérios)
Pavilhão Nacional Mastro da Bandeira (Esplanada dos Ministérios)
Ponte JK (Ligação entre Brasília e o Lago Sul)
Planetário (Eixo Monumental)
Praça dos Três Poderes (Esplanada dos Ministérios)
Quartel General do Exército (Setor Militar Urbano)
Teatro Nacional Cláudio Santoro (SCTN – Asa Norte)
Templo Budista da Terra Pura (SQS 315/316 – Asa Sul)
Templo da Boa Vontade (SHLS 916 – Asa Sul)
Torre de Televisão (Eixo Monumental)

* Reportagem de abril/2008