Produtos ecologicamente corretos ganham mercado

Posted on Março 29, 2010

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Roupas confeccionadas a partir de algodão colorido recebem selo de qualidade orgânica

TAMARA COSTA (para o Na Prática)

Produzir sem degenerar o meio ambiente atualmente é o grande desafio das empresas. Até por uma questão de competitividade, empresários investem em produtos alternativos e ecologicamente corretos, como alimentos orgânicos, produtos reciclados, biodegradáveis e econômicos.

O Consórcio Natural Fashion da Paraíba surge nesse cenário. Fundado em abril de 2004, objetiva o fortalecimento das cadeias têxteis que difundem o algodão colorido por meio da valorização do artesanato local e da agricultura familiar. O Consórcio recebeu o certificado de qualidade orgânica e responsabilidade social, cedido pelo Instituto Biodinâmico (IBD) às empresas que investem na qualidade do produto e no respeito ao trabalhador.

Tal selo está impresso na etiqueta de todos os produtos desenvolvidos pelo consórcio. “Os selos de origem e as certificações são estratégias que fornecem maior segurança ao consumidor?”, destaca Marilena Lino de Almeida, especialista em Meio Ambiente e Responsabilidade Social. Para ela, consumir produtos certificados é a melhor forma de ?exercer cidadania para atingir melhores índices de qualidade de vida e preservação ambiental.

A cadeia de produção orgânica da Natural Fashion vem desde o plantio do algodão colorido, desenvolvido pela Embrapa Algodão de Campina Grande-PB. As sementes são distribuídas aos interessados, neste caso os pequenos produtores da região são sustentados pela agricultura familiar. O algodão passa por uma cooperativa, formada por associações de bairros da periferia de Campina Grande, onde é transformado em produtos de cama, mesa, roupa e artesanatos. Só então as confecções chegam aos revendedores, espalhados pelo Brasil. Em Brasília, existem três representantes do selo.

“Aderi à proposta dos produtos ecologicamente corretos por ser um mercado 100% natural e brasileiro”, adianta Adriana Santos, proprietária do Empório Tropical (SCNL 107), um das representantes da Natural Fashion em Brasília. A empresária diz que o retorno econômico está dentro do programado. “Fiz projeção de venda no plano de negócios e as expectativas de retorno vêm sendo correspondidas”, diz. Segundo ela, as pessoas estão cada vez mais aptas ao consumo, pois trata-se de uma moda básica. Mesmo quem não compra, reconhece o produto. Passam em frente a loja e comentam: “ali a roupa do algodão da Embrapa”, diz a empresária.

Fernanda Cristina Vasconcelos conheceu o produto em João Pessoa e resolveu trazê-lo para a capital em março de 2005. “Achei muito diferente por ser um produto novo; quando comecei aqui só tinha uma loja”, adianta. A empresária começou fazendo feiras como BSB Mix, e a pedidos abriu a loja Natural Cotton Brasil, localizada na CLSW 301, no Sudoeste. Fernanda revende os produtos da Natural Fashion, mas também modelos exclusivos como vestidos, saias, macacão e calças confeccionados com o mesmo algodão colorido pela Coopersal Fashion, de Salinas-MG.

Os produtos “ecologicamente corretos” fazem parte de um mercado ainda jovem, com baixa concorrência, investimento e consumo. “A estruturação da cadeia depende da ação do estado e de outras organizações”, explica Napoleão Esberard, pesquisador/especialista da Embrapa Algodão. Segundo ele, a geração de conhecimento é o primeiro passo para um sistema de produção ecológico. “Na Embrapa realizamos o manejo da cultura, através do tratamento genético do algodão. Faz parte da pesquisa procurar novas cores, variedades, otimizar a fibra – e se adequar ao desempenho da indústria”, continua. Napoleão diz que este mercado precisa ser melhor trabalhado, pois as condições de oferta são consideráveis.

Napoleão garante que demanda por produtos sustentáveis cresce cerca de 20% ao ano em todo mundo. Segundo ele, a maior concentração da produção do algodão colorido é na Paraíba. Trata-se da maior área de produção do mundo, com quase quatro mil hectares. “É bom para o produtor e para o estado, pois o preço de venda é maior e o custo de produção é quase o mesmo. O colorido é mais caro, e neste caso o agricultor recebe mais pela produção. A colheita é um pouco mais difícil; o selo sustentável-social não permite a existência de crianças no trabalho”, diz.

Algodão colorido da embrapa
Civilizações antigas da África, Austrália e Américas, mais precisamente os Incas, já utilizavam o algodão colorido. Entretanto, esta fibra possuía pouca resistência, uniformidade e comprimento reduzido. Tais ineficácias fizeram com que a produção do algodão natural ficasse marginalizada diante da produção mundial do algodão herbáceo convencional – o branco. Registros históricos mostram que ambos algodões têm a mesma idade. Mas nos campos industriais da segunda metade do século 20 foi o algodão branco que recebeu a atenção dos programas de melhoramento genético.

O apelo ecológico da fibra de algodão natural contribuiu para sua entrada no mercado têxtil brasileiro. Após o processo de pesquisa e melhoramento genético, iniciado na década de 80, foram realizados testes de fiação, tecelagem e performance industrial da fibra da BRS Marrom, colorida naturalmente. A fibra colorida BRS Marrom foi lançada pela Embrapa Algodão em dezembro de 2000. No final de 2003 a Embrapa lançou a tonalidade BRS Verde e, em 2005, variedades como BRS Safira e BRS Rubi também entraram no merdado têxtil.

“O trabalho de melhoramento não pára. Estamos sempre estudando novos materiais”, afirma o pesquisador Napoleão Esberard. Segundo ele, este ano a Embrapa Algodão está preparando novas variedades de cor. Entretanto, é importante que a BRS Safira e BRS Rubi, cores avermelhadas lançadas recentemente, sejam absorvidas pelo mercado antes de um novo lançamento. “No futuro podemos até ter um algodão preto, mas nesse caso haverá intervenção ou modificação genética ? considerado transgênico. O nosso trabalho é exploração da variabilidade da natureza através da biotecnologia”, finaliza.

*Publicada em 29/05/2006, visualize neste link

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Posted in: MEIO AMBIENTE